A vida de Daniel Zamudio antes do ataque brutal

[matéria traduzida do site chileno The Clinic Online e autoria de Camila Gutiérrez. Publicada em 7 de março de 2012]

Quando pequeno, gostava de cozinhar comida chinesa e desenhar o naufrágio do Titanic. Agora estava trabalhando em uma loja de roupas, queria terminar o ensino médio e juntava dinheiro para poder estudar modelagem. Uma vida como qualquer outra, mas com uma história de injustiça: a de um rapaz de 24 anos que, por não fazer nada – por simplesmente ser gay – foi arrastado pela terra, terminou violentado por um grupo neonazista, com suásticas em seu corpo e em coma.

Se começar pelo final, a imagem é de Jaqueline Vera rezando, esperando em casa pelo segundo de seus quatro filhos, aquele que quer estudar modelagem, aquele que trabalha em uma loja de roupas – Daniel – voltar.

Jaqueline ainda não sabe que ele está atirado numa praça, que uma parte de sua orelha está cortada, que tem suásticas no peito e nos braços feitos com o gargalo de uma garrafa, que um grupo neonazista o atacou e o arrastou pela terra até as feridas se encherem de formiga.

 – Vermes desgraçados –, sentada fora do hospital público, diz Jaqueline sem rezar mais.

Agora sabe quase tudo. Da sonda na cabeça de Daniel para que o coágulo possa sair, das marcas na pele, dos ferros para unir os ossos, seu filho em coma.

Mas ainda há coisas difíceis para entender: Daniel sai para trabalhar na loja as 7:30h, liga para sua mãe as 11h para dizer que vai na casa de uma amiga, mas depois não liga mais, não volta para casa e Jaqueline não sabe nada até que finalmente começa a encaixar as peças do quebra-cabeça:

– Ele tinha ido numa discoteca – no meio do ano passado – e uns nazis o haviam ameaçado de morte. Um homem disse para ele: “sei onde você trabalha e onde eu te encontrar, te mato”.

Se começar pelo início, a Naty tem o que falar, de 24 anos, amiga de Daniel desde os 8:

– Quando criança, o Dani sempre dizia que não era gay e eu perguntava-o: você é gay? E ele: “não, nããão”, então lhe dizia: “Dani, te conheço há tantos anos. Eu sei”. A gente até dormia juntos.

Daniel se aceitou aos 17.

Nenhuma novidade para sua mãe:

– Sabíamos desde cedo –, diz.

Nenhuma novidade para seu pai, Iván:

– Já sabíamos –, diz.

São os gostos, pensa Jaqueline: Daniel cozinha desde os 5 (comida chinesa é sua favorita), se vê no espelho constantemente (“é que ele é muito vaidoso”, diz sua mãe), ele gosta de cosméticos (uma vez viajou especialmente até Buenos Aires para comprar produtos de beleza) e lhe encanta desenhar (quando criança vivia desenhando, desenhando e desenhando o Titanic partido pela metade).

Mas desde sempre, Juan Francisco Miranda – amigo de Daniel – conta que uma das tristezas no coração do rapaz é a separação dos pais. E, outra pequena dor, é pensar que seu pai esteja infeliz com a sua homossexualidade.

Iván explica:

– Não é isso. É parecido quando uma filha minha aos 16 anos me disse: “papai, estou grávida”. Diabos, o que vamos fazer com você? Alguma coisa assim. Não vou expulsá-la de casa, nem a maltratar. Que inferno, minha filha. Agora você deve assumir essa responsabilidade.

Ele para, sacode a cabeça como se negasse e continua:

– Ele vivia num mundinho só dele. Eu sempre lhe explicava: Dani, somos de outro lugar. De San Bernardo, uma cidade pequena. Mas ele se envolveu com um homem com poder aquisitivo que foi muito bom com ele, mas aí havia consumo de bebida e toda essa história. E o que acontece é que Dani tinha uma parte bonita e outra parte que se rebelou: por causa da bebida perdia trabalhos. Essa parte era a que me revoltava, então fiquei ressentido e bravo com ele e o desaprovava, “como pode isso, ser tão irresponsável”, ele pensava que eu o rejeitava. E eu nunca fui assim. Lhe dizia: “Dani, como podes pensar que eu desejaria algo de ruim para ti? Te rejeitaria porque você é assim ou assado? Não cara, não faria isso”. Mas ele vinha até mim e dizia: “papai, me ame”.

Lindo. Essa é a palavra. Sua mãe diz que ele é carinhoso, tranquilo. Seu pai diz que todos gostam dele. José Francisco diz que é solitário. Outro amigo, que é doce. Mas todos – até os que o conhecem pouco – dizem que é lindo, onde lindo significa bonito e bom; onde lindo significa que depois de ter passado por coisas difíceis – a dor de acabar com seu namorado, a dor de ver uma de suas grandes amigas morta, pendurada em seu quarto, a dor de que tudo parece triste – começava a ser feliz.

Isso fazem 2 anos.

O novo Daniel faz muitas coisas: vai terminar o ensino médio, trabalha, junta dinheiro para estudar modelagem.

O pai de Daniel conta:

– O chefe dele é chinês. Você sabe que os chineses são meio machistas, mas o chefe dele o adora. O adora. Um tremendo cara grande e ele o adora, e veio vê-lo.

A vida está indo bem e, contra a teoria de que – tempestade de merda – tudo de ruim chega junto: a noite, de madrugada, de tarde, ou quem sabe, na qual Daniel terminou sendo arrastado pela terra depois de agredido foi justo nos dias em que as coisas pareciam ter futuro.

Então Naty, sua amiga desde os 8 anos, lembra-se do passado. De um detalhe do passado que hoje, esperando do lado de fora do hospital público, sob o sol que não passa absolutamente nada, parece triste.

Parece a história de sempre:

– Igual quando o incomodavam no colégio. Chamavam-no de veado, coisas desse tipo. Mas ele sempre ria. Ele ria, nada mais. E não dizia nada para eles.

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