Quando pequeno,
gostava de cozinhar comida chinesa e desenhar o naufrágio do Titanic. Agora
estava trabalhando em uma loja de roupas, queria terminar o ensino médio e
juntava dinheiro para poder estudar modelagem. Uma vida como qualquer outra,
mas com uma história de injustiça: a de um rapaz de 24 anos que, por não fazer
nada – por simplesmente ser gay – foi arrastado pela terra, terminou violentado
por um grupo neonazista, com suásticas em seu corpo e em coma.
Se começar pelo final, a imagem é de Jaqueline Vera rezando,
esperando em casa pelo segundo de seus quatro filhos, aquele que quer estudar
modelagem, aquele que trabalha em uma loja de roupas – Daniel – voltar.
Jaqueline ainda não sabe que ele está atirado numa praça, que
uma parte de sua orelha está cortada, que tem suásticas no peito e nos braços
feitos com o gargalo de uma garrafa, que um grupo neonazista o atacou e o
arrastou pela terra até as feridas se encherem de formiga.
Agora sabe quase tudo. Da sonda na cabeça de Daniel para que
o coágulo possa sair, das marcas na pele, dos ferros para unir os ossos, seu
filho em coma.
Mas ainda há coisas difíceis para entender: Daniel sai para
trabalhar na loja as 7:30h, liga para sua mãe as 11h para dizer que vai na casa
de uma amiga, mas depois não liga mais, não volta para casa e Jaqueline não
sabe nada até que finalmente começa a encaixar as peças do quebra-cabeça:
– Ele tinha ido numa discoteca – no meio do ano passado – e
uns nazis o haviam ameaçado de morte. Um homem disse para ele: “sei onde você
trabalha e onde eu te encontrar, te mato”.
Se começar pelo início, a Naty tem o que falar, de 24 anos, amiga
de Daniel desde os 8:
– Quando criança, o Dani sempre dizia que não era gay e eu
perguntava-o: você é gay? E ele: “não, nããão”, então lhe dizia: “Dani, te conheço
há tantos anos. Eu sei”. A gente até dormia juntos.
Daniel se aceitou aos 17.
Nenhuma novidade para sua mãe:
– Sabíamos desde cedo –, diz.
Nenhuma novidade para seu pai, Iván:
– Já sabíamos –, diz.
São os gostos, pensa Jaqueline: Daniel cozinha desde os 5 (comida
chinesa é sua favorita), se vê no espelho constantemente (“é que ele é muito vaidoso”,
diz sua mãe), ele gosta de cosméticos (uma vez viajou especialmente até Buenos
Aires para comprar produtos de beleza) e lhe encanta desenhar (quando criança
vivia desenhando, desenhando e desenhando o Titanic partido pela metade).
Mas desde sempre, Juan Francisco Miranda – amigo de Daniel –
conta que uma das tristezas no coração do rapaz é a separação dos pais. E,
outra pequena dor, é pensar que seu pai esteja infeliz com a sua
homossexualidade.
Iván explica:
– Não é isso. É parecido quando uma filha minha aos 16 anos me
disse: “papai, estou grávida”. Diabos, o que vamos fazer com você? Alguma coisa
assim. Não vou expulsá-la de casa, nem a maltratar. Que inferno, minha filha.
Agora você deve assumir essa responsabilidade.
Ele para, sacode a cabeça como se negasse e continua:
– Ele vivia num mundinho só dele. Eu sempre lhe explicava:
Dani, somos de outro lugar. De San Bernardo, uma cidade pequena. Mas ele se
envolveu com um homem com poder aquisitivo que foi muito bom com ele, mas aí
havia consumo de bebida e toda essa história. E o que acontece é que Dani tinha
uma parte bonita e outra parte que se rebelou: por causa da bebida perdia
trabalhos. Essa parte era a que me revoltava, então fiquei ressentido e bravo
com ele e o desaprovava, “como pode isso, ser tão irresponsável”, ele pensava
que eu o rejeitava. E eu nunca fui assim. Lhe dizia: “Dani, como podes pensar
que eu desejaria algo de ruim para ti? Te rejeitaria porque você é assim ou
assado? Não cara, não faria isso”. Mas ele vinha até mim e dizia: “papai, me
ame”.
Lindo. Essa é a palavra. Sua mãe diz que ele é carinhoso,
tranquilo. Seu pai diz que todos gostam dele. José Francisco diz que é
solitário. Outro amigo, que é doce. Mas todos – até os que o conhecem pouco –
dizem que é lindo, onde lindo significa bonito e bom; onde lindo significa que
depois de ter passado por coisas difíceis – a dor de acabar com seu namorado, a
dor de ver uma de suas grandes amigas morta, pendurada em seu quarto, a dor de
que tudo parece triste – começava a ser feliz.
Isso fazem 2 anos.
O novo Daniel faz muitas coisas: vai terminar o ensino
médio, trabalha, junta dinheiro para estudar modelagem.
O pai de Daniel conta:
– O chefe dele é chinês. Você sabe que os chineses são meio
machistas, mas o chefe dele o adora. O adora. Um tremendo cara grande e ele o
adora, e veio vê-lo.
A vida está indo bem e, contra a teoria de que – tempestade de
merda – tudo de ruim chega junto: a noite, de madrugada, de tarde, ou quem
sabe, na qual Daniel terminou sendo arrastado pela terra depois de agredido foi
justo nos dias em que as coisas pareciam ter futuro.
Então Naty, sua amiga desde os 8 anos, lembra-se do passado.
De um detalhe do passado que hoje, esperando do lado de fora do hospital
público, sob o sol que não passa absolutamente nada, parece triste.
Parece a história de sempre:
– Igual quando o incomodavam no colégio. Chamavam-no de veado,
coisas desse tipo. Mas ele sempre ria. Ele ria, nada mais. E não dizia nada
para eles.
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